No Sesc, Tandara e Fabíola almejam Tóquio após pausa em prol de filhas
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No Sesc, Tandara e Fabíola almejam Tóquio após pausa em prol de filhas

Tandara e Fabiola Montagem
Tandara e Fabíola são as principais contratações do Sesc-RJ para a temporada (Foto: Marcio Rodrigues/ACE)
Jonas Moura - 08/10/2019 - 08:00
Rio de Janeiro (RJ)
A praia está longe de ser a preferência das brasilienses Tandara e Fabíola, principais reforços do Sesc-RJ na tentativa de voltar ao topo da Superliga feminina de vôlei, que começa no dia 12 de novembro, após um quinto lugar. Mesmo assim, areia, sol e mar as unem de alguma forma.

Suas filhas se apaixonaram pela capital fluminense. Amam a praia. A oposto, campeã olímpica em Londres-2012, se esforça para ver um sorriso no rosto de Maria Clara, de quatro anos. O mesmo faz a levantadora com Andressa, de 12, atleta do Fluminense, e Annah Vitória, de três.

A preocupação com o conforto das crias foi uma das principais razões para as atletas pedirem dispensa da Seleção Brasileira em 2019. Mas agora elas esperam convencer o técnico José Roberto Guimarães de que merecem ir à Olimpíada de Tóquio-2020.

O evento pode marcar suas despedidas do time nacional e um novo capítulo de uma parceria antiga. Na primeira Superliga de Tandara, no extinto Brasil Telecom, de Brasília, em 2006/2007, Fabíola, que acabara de ter a primeira filha, foi “mãezona” da novata, na época com 17 anos. Juntas, elas ainda seriam campeãs por Osasco, em 2011/2012. O tema maternidade as une a cada dia.

Tandara, de 30 anos, vem de um ano difícil no Guangdong Evergrande, da China. Em novembro, torceu o tornozelo esquerdo e jogou no sacrifício. Em 2019, viveu situações inesperadas na vida pessoal, como o fim de um casamento. Cumpriu o acordado com Zé Roberto, de jogar o Pré-Olímpico na posição de ponteira, em agosto, e focou em si. O país se garantiu em Tóquio.

– A Maria Clara estava muito sozinha e senti, como mãe, que deveria ficar mais perto. Houve mudanças na cabeça dela e uma precisava da outra. Era o momento de me dedicar à minha filha e a mim. Eu não estava me sentindo bem. Expliquei ao Zé e nos entendemos, sem briga – garantiu Tandara, em entrevista ao LANCE!.

Fabíola, aos 36 anos, quer ir para a segunda Olimpíada, após ter amargado a eliminação nas quartas da Rio-2016 e um corte às vésperas de Londres-2012. Hoje, a concorrência é acirrada. Macris (Minas) e Roberta (Osasco) defenderam o time na Copa do Mundo. O Brasil foi quarto. Dani Lins (Bauru) também está na briga.

– Tenho o sonho de jogar outra Olimpíada e estava à disposição. Mas foi difícil encontrar uma pessoa para cuidar das minhas filhas no Rio. A mais nova é muito apegada – afirmou a ex-atleta do Sesi Bauru, que eliminou o Sesc nas quartas de final da última Superliga e já defendeu o time de Bernardinho quando a sede era em Curitiba.

Tandara e Fabíola, inclusive, são as únicas mães no elenco do Sesc. Ter uma ao lado da outra é uma forma de compartilhar a rotina diferente do habitual.

– Vivemos situações diferentes das demais meninas. O descanso não é o mesmo. Abrimos mão de coisas em prol das filhas. Mas trazemos para as jogadoras o amadurecimento da maternidade. O lado mãezona também. Em quadra, na hora de cobrar, cobramos. Na hora de dar o afago, damos. Tentamos equilibrar – contou Fabíola.

A estreia do Sesc será no dia 25 de outubro, contra a Seleção Carioca, pelo Estadual. Na Superliga, o primeiro desafio é contra o Curitiba Vôlei, fora de casa, no dia 12 de novembro.

A equipe carioca também contratou as ponteiras Amanda e Ariele, as centrais Milka e Lara, a líbero Natinha, a levantadora Thais e a oposto Renatinha. As ponteiras Drussyla e Peña, as centrais Juciely e Linda Jessica, a oposto Natiele (em recuperação de lesão no joelho), a levantadora Carol Leite e a líbero Gabiru permaneceram no grupo.

BATE-BOLA
Tandara
Oposto do Sesc-RJ, ao LANCE!

‘Em ano pré-olímpico, eu vim para ser sugada pelo Bernardo’

LANCE!: Como se sente prestes a, enfim, jogar no Sesc e atender a uma expectativa antiga da torcida?
Tandara: Todos sabem que o namoro entre Tandara e o Rio é antigo, mas só veio a se concretizar este ano. Estou muito feliz pela decisão que tomei. Estou adaptada aos treinos e à minha casa. O trabalho é um pouco diferente, mais intenso do que tudo o que eu já tinha vivenciado no vôlei. Maria Clara está feliz, com escola e amigos novos. Estou ansiosa para os jogos. 

L!: O que você ainda busca aprimorar no seu jogo?
T: Eu me cobro muito em relação aos jogos, sobretudo decisões. Penso: "se fizer este golpe contra a Sérvia, não vou rodar, então tenho de fazer algo diferente". Eu busco me superar a cada dia e criar golpes. Quero crescer fisicamente. Sempre ouvi dizer que o Bernardo suga o máximo das jogadoras. Enxerga o que você pode fazer e cobra até a última gota do seu suor. Eu vim em busca disso, em um ano pré-olímpico, para ser sugada e ver minhas limitações. Espero fazer uma Superliga muito boa para chegarmos lá na frente.

Tandara em ação diante do Japão
Tandara em ação pela Seleção Brasileira (Foto: Divulgação/FIVB)
L!: Como a dispensa da Seleção te ajudou neste momento?
T: Eu sabia que a decisão seria interessante para minha recuperação do pé, que até um tempo atrás ainda me incomodava, além de resolver problemas pessoais. Se eu não tivesse feito isso, eu estaria em outra etapa. Tudo foi resolvido e estou me dedicando cada dia mais aos treinamentos e à evolução física, em relação às lesões.

L!: Quais são seus planos em relação à Seleção, após esse pedido de dispensa? Acha que pode voltar?
T: Pretendo disputar a Olimpíada de Tóquio como titular e, depois disso, não mais. Já não sou nenhuma jovem. Sei das minhas limitações. Preciso de um descanso mais trabalhado, para que tenha maior longevidade no vôlei. Então, meu projeto na Seleção vai até Tóquio. Depois, seguirei nos clubes.

L!: Qual é o saldo da ida à China? Como foi a recuperação da lesão?
T: Ganhei muito. Não no lado profissional, mas no pessoal. Voltei às minhas origens e me deparei com situações que, aqui no Brasil, não damos valor, como lavar o uniforme na pia, porque eu só tinha dois (risos). A lesão foi complicada. O Alexandre Urso se disponibilizou a ir até a lá cuidar de mim e me colocar em condições de jogo, mas retardou a recuperação para quando eu voltasse ao Brasil. Foi um desafio grande me machucar e voltar no sacrifício. Eu sentia muita dor. Mas deu certo. Hoje, digo que estou 100% recuperada e pretendo fazer uma Superliga excelente.

L!: Como está sendo o reencontro com a Fabíola?
T: Admiro muito, como mãe e atleta. Trocamos figurinhas sobre nossas filhas, como, por exemplo, onde tem hospital, e onde fica isso ou aquilo. Essa volta ao Brasil ao lado dela me faz sentir muito bem.

BATE-BOLA
Fabíola
Levantadora do Sesc-RJ, ao LANCE!

‘Acredito que eu não fechei as portas na Seleção Brasileira’

LANCE!: Assim como a Tandara, você tinha expectativa de jogar no Rio há anos. Como foi a realização?
Fabíola: Era um desejo antigo. Trabalhei com o Bernardo há muitos anos, em Curitiba. Ele me fez virar levantadora e acreditou no meu potencial. Foi a primeira vez que saí de casa. Então, ficava o desejo de poder um dia voltar a trabalhar com ele. Tentamos antes, mas só agora deu certo. É uma responsabilidade. Chego com uma bagagem grande. Vou tentar trazer a experiência em prol do grupo.

L!: Como foi a adaptação ao Rio?
F: Tive um receio natural do Rio, pois vinha de Bauru. uma cidade mais pacata, do interior. Aqui, há uma concentração grande de carros, então a adaptação no início foi um pouco difícil. Mas agora já consigo andar em alguns lugares, com o GPS. Treinamos na Urca e a visão ao entrar da Baía é incrível. Se chegamos com aquela preguiça e damos de cara com esse visual, dá uma renovada. A história do Rio é muito bacana. Eu não conhecia e é legal saber as origens de onde você trabalha, entender como tudo foi conquistado quando os portugueses chegaram. Ainda não conheci nem a metade, mas estou bem feliz. Queria isso.

Fabíola
Fabíola diz que Seleção ainda é meta (Foto: FIVB/Divulgação)
L!: Sua filha mais velha, a Andressa, está jogando no Fluminense. O que está achando da novidade?
F: Não é algo que eu queria para minhas filhas (risos). Atleta abre mão de muita coisa. Não gostaria que ela saísse de casa cedo e passasse pelo que passei. Mas a escolha é dela. Ao chegarmos ao Rio, os meninos da comissão falaram que valeria um teste. Ela gostou. Se for para ser, estarei do lado. Se decidir outra profissão, também. Ela é ponta. Não quer levantar, não.

L!: Acredita que as portas estão abertas na Seleção Brasileira?
F: Eu expliquei para o Zé a minha situação e acho que ficou esclarecido. Mas não sei o que vai acontecer no ano que vem. Acredito que eu não tenha fechado as portas na Seleção.

L!: Como está sendo o reencontro com a Tandara?
F: Vivenciamos muitas coisas que poucas pessoas conhecem, porque quando jogamos em Brasília, ela só tinha 17 anos. Foi uma fase importante. A gestação a fez amadurecer, e as pessoas que agregaram contribuíram nessa evolução. Fico feliz de hoje voltar a estar com ela, em uma fase mais madura, mais forte, mais concentrada e mais mulher. Poder participar disso é gratificante. Sabemos da responsabilidade que temos no Sesc e queremos trazer tudo o que vivenciamos nesses anos para a quadra.


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