Forte disparidade e ânsia por mudanças: os efeitos do modelo de transmissões em Portugal
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Forte disparidade e ânsia por mudanças: os efeitos do modelo de transmissões em Portugal

Montagem - Porto, Benfica e Sporting
'É óbvio que o Benfica, Porto e Sporting recebem bem mais do que qualquer outro clube', diz Rui Pedro Brás (Foto: AFP)
Vinícius Faustini - 01/07/2020 - 07:40
Rio de Janeiro (RJ)
O novo rumo nos direitos de transmissões no Brasil, projetado na Medida Provisória nº 984, que foi editada pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 18 de junho, também vigora em uma liga europeia. No entanto, o Campeonato Português evidencia um doloroso contraste.

- Cada clube negocia os valores dos seus direitos de transmissão dos jogos em casa. E é óbvio que o Porto, Benfica e Sporting recebem bem mais do que qualquer outro clube. Portanto, este modelo cava o fosso entre os ditos grandes e os menores - define Rui Pedro Brás, analista esportivo da TVI e com MBA em Gestão do Desporto, ao LANCE!.

'TRÊS GRANDES' MUITO MAIS REQUISITADOS NAS TRANSMISSÕES

Liga de Portugal - Logo
'A diferença é enorme e estrangula a competição', diz analista esportivo da TVI (Divulgação)
O contraste no patamar dos clubes chama atenção negativamente inclusive no futebol mundial. Um estudo divulgado pela Uefa em 2019 apontou que Portugal traz a pior distribuição no faturamento com transmissão: os tradicionais Porto, Benfica e Sporting chegam a obter lucro até 12 vezes maior do que adversários que costumam ficar em colocações inferiores.

Brás detalha a maneira como as equipes tradicionais foram lucrando cada vez mais com este modelo.   

- De um lado, há o Benfica, o Porto e o Sporting. Quando um clube de segunda linha como Belenenses, Boavista ou Rio Ave quer negociar as partidas disputadas em seus domínios, as operadoras basicamente tentam comprar os jogos contra estes três! Afinal, eles são os grandes, valem mais do que todos os outros - declarou.

O fato de benfiquistas, portistas e sportinguistas ficarem mais tempo no ar trouxe um preço alto para a disparidade da Liga de Portugal. 

- O Benfica, por exemplo, recebe atualmente 44 milhões de euros (em torno de R$ 270 milhões) por ano, só em direitos televisivos. Enquanto isto, há clubes que recebem apenas R$ 25 milhões anuais (caso do Belenenses, segundo balanço de 2019 divulgado pelo clube). A diferença é enorme e isto estrangula a competição - afirmou o analista esportivo da TVI.

As Águias ainda têm um trunfo: a Benfica TV (ou BTV) é transmitida tanto em televisores quanto de maneira online. Além dos jogos, constam na programação reportagens especiais e partidas do time principal, do Benfica B e das categorias de base do clube.

O Porto também investiu em sua PortoTV, mas só em plataformas digitais. Os Dragões lucram em média 41 milhões de euros (R$ 252 milhões anuais), incrementado desde que houve um acordo para exibição de jogos com a empresa de comunicação MEO. Já no balanço financeiro do Sporting, constam 22 milhões de euros (por volta de 152 milhões) com valores vindos de transmissões de jogos por ano.

Entre as emissoras que exibem os demais confrontos da competição estão a RTP Internacional, Eleven TV, o conglomerado Sport TV, que existe em Lisboa desde 1998. A NOS, grupo de TV a cabo, patrocina a competição e é responsável pela injeção de dinheiro nos clubes.

LUTA POR MUDANÇAS, MAS...

Porto x Boavista
Mesmo bem cotado na TV, Porto contabilizou prejuízo nas contas referentes ao ano passado (Divulgação Twitter Porto)
Com a hegemonia dos "Três Grandes" intacta desde a temporada de 2000/2001 (quando o Boavista sagrou-se campeão), os participantes da Liga de Portugal já se movimentam para traçar novos rumos nos direitos de transmissão. O país quer se adequar de vez ao modelo divisão de cotas de outras ligas europeias.

- Em países como Inglaterra e Itália, a Liga negocia os direitos e preza por uma democratização maior de receitas e maior capacidade. O desafio é o equilíbrio competitivo e maior capacidade financeira de todos. Portugal também quer seguir este caminho - frisou Rui Pedro Brás.

Entretanto, o especialista apontou que há um árduo empecilho para que o Campeonato Português mude suas regras de transmissão de maneira rápida: a maneira como os clubes aproveitaram o fato do vínculo inicial ter previsão de durar até 2028.

- O que acontece é que muitos dos últimos contratos celebrados entre os clubes e as emissoras foram há dez anos. Os dirigentes agarraram esses acordos e receberam logo o valor todo por meio das entidades bancárias, em vez da quantia vir mês a mês - e detalhou:

- Com o aumento de juros, no decorrer do tempo, o banco passou a se tornar credor das operadoras de TV. Depois, as operadoras passaram a depositar nos bancos. A grande resistência é que os clubes estão endividados em cima dessa receita futura que já não existe para eles, porque já foi antecipada - completou.

Mesmo entre os "Três Grandes", o Porto é um dos clubes com situação delicada. No balanço referente a 2019, o clube contabilizou prejuízo em torno de 51 milhões de euros (por volta de R$ 343 milhões).

ESPAÇO PARA NOVOS RUMOS?

Porto x Benfica - Disputa
'Centralização para negociar os direitos valorizará mais o negócio', diz Rui Pedro Brás (Foto: AFP)
As transmissões de jogos em Portugal estão em contagem regressiva para mudanças. A NOS, empresa de TV a cabo lusitana, anunciou que não renovará a parceria com a Liga, que chega ao fim em junho de 2021. Os clubes já se mobilizam para encontrar um nova patrocinadora, segundo o "Récord".

Em paralelo, o desejo da competição ter os seus direitos de transmissão mais equilibrados chegou ao secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebello. O movimento, aos olhos de Rui Pedro Brás, é uma alternativa, uma vez que a mudança na distribuição de cotas já aconteceu em outros países com ajuda governamental.

-  Na Itália, houve uma intervenção do governo para mudar o formato de longa duração e ocorrer a centralização dos direitos. Tudo isso faz com que as competições cresçam. O negócio passa a valer muito mais. É importante que haja uma democratização do futebol. O objetivo de centralizar fica maior neste momento, no qual há e haverá ainda mais o impacto da crise do novo coronavírus entre os clubes - disse.

O analista esportivo da TVI, que tem MBA em Gestão do Desporto, é categórico ao falar como o modelo proposto pela MP 984 pode afetar o futebol brasileiro.

- Portugal é um exemplo do que não se deve fazer quanto a transmissões de televisão. O Brasil está seguindo o sentido contrário. Não é assim que se defende a democratização dos direitos dos clubes. Uma Globo ou uma Bandeirantes pagarão muito mais ao Flamengo, Santos, Corinthians, Palmeiras, Botafogo, Fluminense, Vasco e, por conseguinte, muito menos a clubes de menor projeção nacional. É necessário outro tipo de divisão que garanta competitividade no país - declarou.

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