Cuca lembra 2019, vê São Paulo como 'prateleira que ficou vazia' e não descarta volta no futuro
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Cuca lembra 2019, vê São Paulo como 'prateleira que ficou vazia' e não descarta volta no futuro

Cuca
Cuca durante a última passagem pelo São Paulo, em 2019 - FOTO: Rubens Chiri/saopaulofc.net
Fellipe Lucena - 09/05/2020 - 08:00
São Paulo (SP)
Cuca passou anos idealizando a sua segunda passagem pelo São Paulo. Na primeira, em 2004, o técnico ajudou a montar uma equipe que avançou até a semifinal da Copa Libertadores e foi eliminada com um gol no último minuto em Manizáles. O retorno aconteceu em 2019, mas foi menos feliz do que o esperado: ele assumiu em abril, foi vice-campeão paulista, caiu nas oitavas da Copa do Brasil e estava em sexto lugar no Brasileirão quando pediu para sair, em setembro. A prateleira segue vazia...

- O São Paulo sempre ficou como uma prateleira minha com uma lacuna. Eu sempre pensava no São Paulo, em um dia voltar para ter uma conquista. Sempre pensava. Passaram-se os anos, um dia quase deu, três ou quatro vezes bateu na trave. A oportunidade apareceu para mim não no momento errado, mas no momento em que eu não estava muito preparado. Passei por um problema de saúde lá no Santos. Teve um jogo com o Cruzeiro, perdemos 500 gols, perdemos o jogo, passei mal. Falei para o doutor e constataram um problema. Fiquei quieto, aguentei até o fim do ano, e tinha que fazer um tratamento de seis meses para calcificar uma artéria. Não é uma cirurgia, era uma artéria que tinha que ser calcificada, porque se fica a gordura molinha, em um pico de nervoso sai um coágulo e você tem um AVC, você tem um piripaque, Deus o livre. Eu estava no terceiro mês quando o São Paulo me procurou e não podia ir. Falei com o médico e ele disse: "De jeito nenhum". Falei para o São Paulo que não poderia ir, mas o São Paulo me esperou - relembra Cuca, que pediu ao coordenador-técnico Vagner Mancini que assumisse o lugar de André Jardine até que ele pudesse se apresentar.



E MAIS:
Mancini montou um time repleto de garotos de Cotia e levou o São Paulo até a semifinal estadual. O combinado era que Cuca assumisse assim que a participação da equipe no Paulistão acabasse, mas ele se antecipou e estreou no jogo de volta contra o Palmeiras, no Allianz Parque, em que o Tricolor segurou um empate sem gols e avançou à decisão nos pênaltis. Contra o Corinthians, um gol no último lance como aquele do Once Caldas deixou o clube com o segundo lugar.

- Aí preparamos o projeto para o Brasileiro. Diminuímos a folha, apareceram oportunidades de o São Paulo contratar. Contratou Alexandre Pato, Daniel Alves, Juanfran, Tchê Tchê, foi um processo de mudanças. Quando se muda assim, é difícil as coisas darem certo logo de cara. A gente tinha dado uma arrancada, fora de casa estava jogando até melhor. Chegou uma época em que estávamos subindo legal, aquele jogo contra o Santos (vitória por 3 a 2 no Morumbi) foi um jogão, nós jogamos muita bola, encaixamos o time na base da velocidade, que eu gosto muito, e tínhamos as contratações para estrear. Até dei uma entrevista falando que íamos perder um pouco o nível até eles (Daniel Alves e Juanfran) se adaptarem ao futebol brasileiro, ao jeito de o time jogar, e o time se adaptar a eles também. Muita gente interpretou errado, mas para mim isso é muito claro. Tivemos uma queda, mas com o tempo ia voltar. Na minha cabeça, ia melhorar. Eu que pedi o Daniel, ele veio para ajudar um monte. Mas isso não veio, eu não via o São Paulo com aquela arrancada para brigar pelo título. Eu chamei o Pássaro e o Raí depois do jogo do Goiás, expliquei para eles o que estou falando para você, que se pusesse outro treinador podia dar uma arrancada... Eu não faço multas nos meus contratos porque sou assim. Em 2017, no Palmeiras, fiz do mesmo jeito. Vi que estagnou, que ia ficar em segundo ou terceiro, o que não é ruim, é ótimo, e saí. Para mim fica aquela prateleira vazia ainda. Mas o mundo é redondo, tenho 56 anos. Nada impede que um dia eu volte e faça um outro trabalho no São Paulo. Fica um dissabor, mesmo entendendo que o trabalho não foi ruim. Eram 55% de aproveitamento no Brasileiro, isso não é ruim, mas podia ter sido melhor. Quem sabe em outra ocasião eu possa ter um trabalho melhor. Não tenho queixa nenhuma e de ninguém no São Paulo, pelo contrário - disse.

Sem clube desde que deixou o Morumbi, Cuca está de quarentena com a família em Curitiba, onde tem residência. Dedica quase todo o tempo à neta Eloá, que está prestes a completar três anos, mas também pensa no futuro. O Colo-Colo foi quem esteve mais perto de contratá-lo:

- Tive alguns convites aqui no Brasil e estive muito, muito perto de acertar com o Colo-Colo para essa Libertadores. Não foi diferença financeira. O que eu entendo é que o treinador brasileiro que sair agora vai ter que fazer um baita trabalho, porque vai haver aquela comparação do brasileiro que saiu em relação aos estrangeiros que estão vindo. Eu expliquei isso para o pessoal do Colo-Colo. O time é bom, mas falta alguma coisa. E eles não podiam me dar essa coisa agora por causa do orçamento. Nós deixamos para o futuro, quem sabe o ano que vem. É um lugar bom, é um time com muita tradição, quem sabe no futuro a gente possa ir para lá.

Veja abaixo outros tópicos da entrevista com Cuca. Na semana que vem, o LANCE! publicará um outro trecho da conversa com o treinador, lembrando de uma importante partida da Libertadores de 2004 que fará aniversário.

A DERROTA NO ÚLTIMO MINUTO EM ITAQUERA
​Era minuto final, nós tínhamos uma falta lá do lado esquerdo da defesa. O Volpi foi lá fazer a batida. Lógico que você tem que tirar o time de trás para ganhar a segunda bola, é natural. Acabou que a gente perdeu a primeira, perdeu a segunda, e eles armaram um contra-ataque. Acabou custando para nós um título. Não tem um culpado, mas você tem que tirar proveito para não acontecer no futuro. É bom para quem ganhar, mas para quem perde é muito difícil.

AS DECLARAÇÕES DE DANIEL ALVES SOBRE DINIZ LEVAR 'MODERNIDADE AO CLUBE'
Para falar a verdade eu nem vi. Eu quando saio do clube não fico mais olhando. A gente sabe que na vida é assim. Você é bom enquanto está dentro. Quando sai, não é mais bom. Os meus trabalhos, a minha forma de agir, de montar times, de mudanças de esquema, como vocês viram em todos os meus trabalhos, mostram que estou muito atualizado. Até porque sou um cara jovem. O Diniz tem a maneira dele de trabalhar, é bonito de ver, mas não vejo que eu esteja abaixo de qualquer outro profissional do mercado.

POR QUE IGOR GOMES NÃO TEVE SEQUÊNCIA?
Eu acho que ele é um jovem muito promissor, tem muito a crescer, evoluir. Acho que o meia tem que pisar na área direto, cobrava muito do Igor isso, falava dos gols que ele tinha feito, que era por entrar na área. Estava faltando isso a ele. Não me lembro agora, mas acho que era o Hernanes que estava de titular. E o Hernanes estava vivendo um bom momento. Ele tem uma vivência, uma experiência enorme, e naquele momento era importante para nós. Ele fez jogos bons, estava pegando o ritmo. Quando eu fixava o Tchê Tchê de primeiro volante eu conseguia jogar com dois meias, o Daniel era um desses meias. O Igor não tinha as oportunidades que merecia por essa situação, de eu estar adaptando o Daniel. Por isso que ele não tinha tantas oportunidades, mas acho que ele vai ser grande jogador. Só ter paciência, dar tempo ao tempo.

POR QUE PATO NÃO DESLANCHOU EM 2019?
É um cara muito profissional, muito correto. Ele gosta de jogar pelo lado esquerdo. Eu tentei montar um esquema para ele ser o 9 sem jogar de costas, flutuar, vir de trás com força. Em alguns jogos deu certo, em outros não deu. Em alguns jogos usei ele vindo criar, quase como um 10, usamos pelo lado direito. Tentamos usá-lo de todas as formas. Ele tem uma pressão muito grande em cima dele por tudo o que já fez, a pressão é muito grande, ele sabe disso. Mas é boa pessoa e não tenho queixa nenhuma.


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