Opinião: 'Multiplicidade de estilos à prova no futebol'
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Opinião: 'Multiplicidade de estilos à prova no futebol'

Montagem Abel Carille Sampaoli e Diniz
ESTRATÉGIAS E RISCOS - Treinadores têm o desafio de implementarem suas visões apesar de correrem riscos por eventuais tropeços (Divulgação) 
Felipe David - 01/02/2019 - 08:05
Rio de Janeiro
Quatro importantes clubes brasileiros iniciaram a temporada com novos técnicos. Abel Braga e Fernando Diniz (no Rio), Fábio Carille e Jorge Sampaoli (em Sampa) foram as “caras novas” da temporada recém inaugurada. Metodologias de jogo com visões intrínsecas, contudo, impõem por muitas vezes rótulos que não reproduzem obrigatoriamente a complexidade do jogo – dentro e fora de campo. Aí entra a necessidade de compra da ideia por parte dos jogadores.

Enquanto a temporada ainda não oprime os profissionais com a exigência por resultados imediatos, o que se evidencia é a introdução de uma nova abordagem pautada por elementos técnicos, táticos e interpessoais. Logo, o cenário atual encontra-se perfeito para que raciocínios concernentes ao futebol sejam concebidos em suas mais variadas tipificações e tracejos. Expressões mais do que batidas como aplicação tática, preenchimento de espaços e avanços pelos setores em bloco serão repetidas, é claro. Mas a temporada de 2019 tende a denotar uma perspectiva diferenciada.

Desde a chegada de Abel Braga (paizão, medalhão e outros “ão”, além de notoriamente um baita gerenciador de grupos) ao clube da Gávea – muito em conta (estou certo disso!) pelo contágio provocado pelo êxito de Luiz Felipe Scolari no Palmeiras no segundo semestre –, venho batendo na tecla de que um casamento de atributos será preciso entre Flamengo e treinador, uma vez que o jogo de transições rápidas proposto por Abelão em seus últimos trabalhos choca com o DNA rubro-negro e as características do elenco no tocante ao amplo controle da bola. Porém, ao analisar os primeiros jogos da equipe no ano, comecei enxergar algo positivo nessa mistura. O embate de estilos pode provocar o enriquecimento de uma nova cultura de jogo. Basta, porém, que os lados assimilem as propostas colocadas à mesa. E aí é que fica bonito de se ver.



Fernando Diniz, o inovador, tem a missão de aliar a dificuldade financeira do Fluminense na composição de um grupo possível com o seu propósito firme de jogo, de posse de bola e busca incessante pelo ataque. Logo ele que ganhou status pelo “arroz com feijão“ dos tempos de Audax que, com orçamento ainda menor, se impôs contra os grandes clubes no Campeonato Paulista de 2016.

Aqui entra Jorge Sampaoli, o estrangeiro. Treinador prestigiado internacionalmente pela composição de equipes voltadas ao ataque e dotadas de uma disciplina ímpar com intensa ocupação de espaços. Semelhança com Diniz em filosofia de jogo, mas não na paciência, visto que o argentino preza por um ritmo acelerado e vertical rumo ao gol adversário. Apesar de o Peixe estar em ótima fase no Estadual, é consenso que o treinador precisará de tempo para se adaptar ao ambiente hostil e irrequieto do futebol brasileiro.

Por último, Fábio Carille, a aposta que deu certo lá atrás. O repatriado campeão de 2017 é o legítimo representante da solidez defensiva e do equilíbrio, apesar de ser um apreciador da saída da defesa em aproximações e triangulações. Tudo bem que o Timão ainda não mostrou a que veio neste Paulistão, mas o seu treinador já deu provas de que tem competência o suficiente para realizar mais um excelente trabalho. Carille segue uma linha de raciocínio parecida com a de Renato Gaúcho, no tocante às aproximações e triangulações. Marcas que consagraram o estilo gremista nas quatro linhas.

A ocupação de espaços apreciada por Carille também é aposta do jovem André Jardine, à frente do São Paulo, que parece gostar de iniciar o ataque pela estruturação do setor defensivo. Vejamos o Tricolor paulista no Estadual. Nem de longe aparenta o time opaco e desalinhado que disputou a Florida Cup.

Destaco, ainda, três treinadores com passagens por gigantes do eixo Rio-São Paulo e que terão muito o que provar nesse 2019 em equipes menores. São os casos de Rogério Ceni, no Fortaleza (agora na elite nacional após o título da Série B do Brasileiro com o clube cearense, além de ídolo e ex-técnico do São Paulo), de Maurício Barbieri, no Goiás (dirigiu o Flamengo em parte de 2018), e de Osmar Loss, no Guarani – ficou pouquíssimo tempo no Corinthians após substituição a Carille.

Ah, o futebol europeu. Sim, estará presente no Brasil na filosofia tática de alguns destes treinadores, aprendizes declarados de modelos adotados nas principais ligas de lá. Sendo assim, o que se espera é que, mesmo sem os talentos que partem periodicamente rumo ao Velho Continente, os campeonatos daqui tenham um futebol com identidade nos mais variados estilos.

Como dissera no começo desta coluna, um novo horizonte parece despertar na temporada que inicia. E graças a técnicos aficionados pela ousadia e iniciativa em “agredir” com a manutenção da posse de bola. O que espera-se é que eles tenham tempo para implementarem suas metodologias sem que sejam surpreendidos negativamente em caso de insucessos no início
dos seus trabalhos.

Na contramão, a pré-temporada constantemente prejudicada tecnicamente pelos Estaduais. Mas isso é tema para uma outra coluna. Enquanto isso, o caminho que liga os ideais às concretizações permanece suscetível a rompimentos inesperados.


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