Clube-empresa volta a ganhar corpo no Brasil: os prós e contras do tema
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Clube-empresa volta a ganhar corpo no Brasil: os prós e contras do tema

Montagem - Irmãos Moreira Salles
Irmãos Moreira Salles estão em conversas com o Botafogo para assumirem o futebol como empresa (Reprodução)
David Nascimento -
Rio de Janeiro (RJ)
Comum entre os clubes da Europa, o conceito “clube-empresa” volta a entrar em pauta aqui no Brasil. Um dos grandes que está neste caminho é o Botafogo, depois do estudo encaminhado pelos irmãos Moreira Salles. Muitas são as justificativas que baseiam esta mudança de pensamento na administração dos clubes brasileiros, como as enormes dívidas em diversos segmentos. Na maior parte das ocasiões, as contas acabam não fechando - uma bola de neve.

E, com planejamento, pode ser uma tendência benéfica para maiores investimentos, resultando em um aumento da competitividade financeira entre as instituições. O LANCE! conversou com especialistas e trás nesta reportagem especial os prós e contras do tema. Amir Somoggi, sócio diretor da Sports Value, falou sobre o atraso da implementação da questão no Brasil, comparando com a Europa.



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- O Brasil está atrasado há uns 30 anos. Na Europa, todos os grandes clubes, com exceção de Barcelona e Real Madrid, trabalham neste sentido. Vejo com bons olhos esta crescente na pauta este ano em solo brasileiro. Praticamente tudo é positivo. Mas precisa ter alguns cuidados, já que há variáveis a serem consideradas. Para o Brasil, acredito que o melhor modelo de clube-empresa é o da Alemanha. Há muitos pontos semelhantes entre os dois países nesta questão - afirmou.

As considerações destas variáveis vão de acordo com a relevância de cada clube, com cada caso necessitando ser avaliado de maneira individual. Somoggi acredita que os clubes que virem empresa precisam manter as tradições históricas de cada um, colocando em prática em uma gestão profissional e, principalmente, a manutenção majoritária na administração, colocando à disposição do mercado pequenas partes para investidores interessados.

- Há a necessidade de que os clubes, que virem empresa, sigam próximos aos torcedores, detendo a parte majoritária do comando da nova administração. É bastante similar ao modelo alemão, do famoso 50%+1. Nesta linha, acontece a profissionalização total da gestão, com o clube como acionista majoritário da nova empresa. Assim, não chega ninguém mudando o clube de cidade, as cores do clube, tirando toda a história que foi construída durante décadas. Há a necessidade de uma mudança brutal na gestão, com a criação de um conselho de administração, alta governança e compliance, ou seja, estar em dia com atos, normas e leis, de olho em seu efetivo cumprimento - lembrou Somoggi.

E MAIS:
Como pontos positivos nesta mudança dos clubes em empresa, Amir Somoggi cita a gestão, profissionalismo, credibilidade, transparência, atração de investimento, valorização da marca, novas receitas, impacto econômico na região, mais títulos e melhor desempenho, engajamento da torcida, atração de mais patrocinadores, entre outros pontos. Ele acredita ainda que é um caminho sem volta a ser traçado para os próximos anos no Brasil, depois do atraso em relação aos principais clubes ao redor do mundo.

Esta profissionalização das administrações, junto com a conquista da confiança de investidores para estes casos, na hora de colocar na balança, faz com que seja bem mais jogo esta mudança para o formato empresa dos clubes. Há discussões se deve ou não separar o futebol para a empresa e a área social, ponto que ainda é alvo de estudos de especialistas para a área. Mas uma questão é dita com clareza: o fortalecimento das competições da CBF e da Conmebol dão ainda mais possibilidades para que os cases sejam de sucesso. A evolução nos últimos anos provam este ponto, em crescente evolução.


Rodrigo Maia na CBF
Rodrigo Maia foi na CBF na última semana (Lucas Figueiredo/CBF)
Não é à toa que esta pauta está na mira do Congresso Nacional, com movimentações neste sentido. A Câmara dos Deputados, inclusive, deve discutir neste semestre um novo projeto para que os clubes se transformem em empresas. O que, na teoria, faria-os mais atrativos para receberem investimentos. Na última semana, em visita na Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Rodrigo Maia, deputado federal pelo Rio de Janeiro, presidente da Câmara e conselheiro do Botafogo, o clube grande mais avançado nesta transformação no Brasil, admitiu esta discussão com os dirigentes da CBF.

– Nós precisamos da entrada de capital estrangeiro. Um clube associativo não vai atrair capital privado nenhum, muito menos estrangeiro, porque a forma de administração é primária, primitiva, atrasada, que não gera eficiência, que não gera transparência, e que não gera bons clubes de futebol no Brasil – afirmou na semana passada o presidente da Câmara dos Deputados, completando sobre a sintonia das discussões no Congresso Nacional, com participação de Paulo Guedes, ministro da economia do Governo Jair Bolsonaro.

- Tirando Flamengo, Corinthians e Palmeiras todos os outros caminhos para situação de inviabilização. É preciso estimular o clube-empresa. Tem que criar uma estrutura para estimular os incentivos. A minha tese é que você tem que estimular a transição do clube-empresa no prazo de 3 a 5 anos sem pagar impostos e depois pagar como qualquer negócio. Já comecei a conversar com o ministro Paulo Guedes para construímos uma solução. A ideia é que a gente construa incentivos para que ser empresa tenha mais vantagem. O benefício tem que ser para aquele que vai aderir ao futebol moderno - finalizou o deputado.

E é justamente neste ponto que vem o maior receio negativo em relação ao tema. Os mais receosos dizem muito sobre o efeito colateral desta transformação dos clubes em empresa, como o aumento do volume de impostos a serem pagos. Este possível auxílio por meio dos parlamentares em Brasília, podem incentivar a aceleração do processo de mudança. Rafael Capanema, membro da Comissão de Assuntos Tributários da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Rio de Janeiro (OAB/RJ), conversou com a reportagem e falou sobre a questão dos tributos neste cenário:

- O impacto da mudança dos clubes, saindo do formato associativo, entrando para a forma de empresa, será muito grande na questão dos tributos. Sairiam praticamente do zero para um volume elevado de impostos. Hoje isentos, teriam que pagar um volume que no primeiro momento, na balança, não seria recomposto com os investimentos. Acredito que os clubes irão pleitear junto aos parlamentares um regime especial para que a mudança de modo da administração faça com que o pagamento dos tributos passe a ser em um médio prazo depois de que a criação da empresa no clube seja sacramentada.

Neste momento, não é possível precisar a quantia de quanto de impostos serão pagos pelos clubes ao se transformarem em empresas, o que seria confirmado apenas depois de um posicionamento do Congresso. Em uma regra geral, atualmente, partiria de 20% sobre a folha de pagamento - com os salários dos jogadores, muitos astronômicos, seria um peso e tanto para a gestão. Apesar disto, para os clubes de maior porte, devido a possibilidade maior de captação de investimentos, o caminho será mais fácil, em comparação com os de menor investimento. É o que acredita Capanema, que destaca como grande vantagem, ao colocar tudo na balança, a possibilidade de que as gestões sejam profissionalizadas, comparando com os modelos já existentes nos Estados Unidos, por meio dos clubes de basquete, e na Europa, pelos clubes em geral.

- A mudança de clube associativo para clube-empresa tem de ser optativa. Os clubes grandes vão conseguir evoluir, mas para os menores o caminho será bem mais difícil. A possibilidade de exploração dos clubes grandes nesta transformação é bem maior. O investidor privado, na hora de investir neste modelo, buscará garantias para ter o lucro, afinal será o dono da empresa, irá querer o retorno dos investimentos aplicados. Mas para isto terá que ter uma profissionalização na gestão dos clubes, modernizando em comparação aos clubes ao redor do mundo. É um caminho, não a curto prazo, que se faz necessário, precisando aumentar estas discussões - concluiu o advogado.

Nas próximas semanas, as discussões entre dirigentes, especialistas, diretores, parlamentares e os demais envolvidos para a transformação dos clubes do Brasil em empresas devem aumentar. As movimentações nos bastidores já caminha neste sentido, mesmo com toda a pressão já existente a cada passo dado sobre o assunto. No longo prazo, é uma forma de equacionar as dívidas, modernizar a gestão, profissionalizar o trabalho e evoluir, de maneira geral, o tratamento dado ao futebol brasileiro. Com os pós e os contras cada vez mais claros, não será complicado uma definição e o desfecho do rumo da mudança.

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