Base forte: ao L!, novo técnico sub-20 fala em 'escola de formação' no Vasco
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Base forte: ao L!, novo técnico sub-20 fala em 'escola de formação' no Vasco

  •  Marcos Valadares é o novo técnico do Vasco sub-20
    Marcos Valadares é o novo técnico do Vasco sub-20 Paulo Fernandes/ VASCO
João Mércio Gomes - 11/04/2018 - 09:00
Rio de Janeiro (RJ)
Uma das condições para Zé Ricardo recusar proposta milionária do mundo árabe era reforçar as divisões de base do clube. E o clube acatou o pedido. A reestruturação das categorias inferiores, liderada por Carlos Brazil, trouxe ao Vasco os técnicos Celso Martins para o sub-17 e Marcos Valadares para o sub-20. Em entrevista exclusiva ao LANCE!, o novo comandante dos juniores abriu o jogo sobre o projeto e o processo de formação de atletas para o profissional. A integração dos garotos com o elenco de Zé já começou.

Vasco é um clube grande e precisa ter jogador que jogue como time grande. Para mim, o sub-20 tem que pensar dessa forma, formar jogadores que propõem um jogo como time grande. Também é a ideia do Zé, aproximar a base do profissional - explica Marcos Valadares ao LANCE!.

- Sobre sistema de jogo, é interessante testar vários. Mas a ideia principal é de propor jogo, ter posse de bola, e o conceito não muda. Por ser um trabalho de formação, precisamos fazer os garotos vivenciarem também situações defensivas. No profissional, vai precisar disso. O nível do sub-20 melhorou muito todas as competições.

Você não tem nem dois meses de Vasco e já fez treinos do sub-20 ao lado dos profissionais no CT das Vargens. Já passou informações para o Zé sobre a base?

- Aconteceu muito mais do Zé me dar informações dos jogadores do sub-20 do que o contrário (risos). Completando dois meses de trabalho, ainda estou conhecendo o elenco. Cada um tem sua historia, tem garotos mais vividos, já tem um caminho andado aqui. Agora vou pegar o Lucas Santos, o Hugo Borges, atletas que já vinham em um processo junto com Evander, Andrey, Paulinho, Paulo Vitor. Esses já estão mais conhecidos.

Explique sua trajetória no futebol para quem não conhece...

- Fiz minha história mais em Minas. Me considero mineiro mas nasci em São Paulo. Comecei no América-MG, tive duas passagens, rodei clubes do interior, Ipatinga, até chegar ao Cruzeiro de 2010 a 2012 no sub-17. Recebi um convite para o sub-17 do Fluminense e aceitei. Fiz um trabalho elgal, consegui formar um grupo e subimos juntos pro sub-20, aquele campeão brasileiro de 2015. Fiquei dois anos e meio naquele time. Com a saída da Unimed as coisas mudaram. Até gostaria de ter continuado, era um time que sabia que viriam boas coisas. O Palmeiras me ofereceu uma oferta muito acima, resolvi ir para São Paulo que era um mercado bom para trabalhar. Já tinha feito minha parte em Minas, no Rio e resolvi tentar em São Paulo. Mas não fiquei muito tempo: o Cruzeiro me chamou de volta, desta vez no sub-20. Achei interessante, em termos familiares era uma boa para mim. Fiquei dois anos com a geração que hoje está no profissional. Até me aventurar no futebol profissional...
 
Você disputou o Mineiro desse ano como treinador, é isso?

- Disputei trabalhando no Patrocinense como auxiliar técnico, conseguimos dar uma arrancada e classificar para Série D. Até empatamos com Atlético e Cruzeiro. Até que recebi o convite do Vasco... O Carlos Brazil me conhecia da época em que jogávamos contra Fla-Flu. Zé Ricardo também me conhecia, deu aval, gostou da minha vinda. A gente conversa bastante. O Fred Lopes me convidou pessoalmente, me mostrou o projeto para fazer um trabalho legal aqui na base do Vasco. São excelentes jogadores, para um treinador que gosta de posse de bola é um lugar ideal. Voltar pro Rio me atriu muito

O que o Rio tem de diferente nesse quesito?

- No Rio, o Estadual é muito bem disputado. Essa melhora de calendário nacional, Copa do Brasil, Copa RS, Copinha... Os atletas se acostumam a jogar grandes jogos. A ideia é ter o domínio de jogo com a bola no pé, porque é aonde acredito que seja a melhor formação. Se o time tem mais de 67% de posse de bola é onde vai se formar tecnicamente. Jogador tem que saber atacar e defender, por isso precisa vivenciar isso. Minha ideia é um time também com bloco baixo, fechado, defendendo e contra-atacando. No nível top não é ideal, mas no nosso futebol precisa aprender a jogar assim também.

O futebol de base no Rio é diferente de São Paulo e Minas?

- Vejo o futebol carioca o mais aproximado dessa escola que consegue fazer um jogo mais bonito em termos ofensivos de posse. Por características, os jogadores tem qualidade técnica muito rica e a gente consegue fazer esse tipo de jogo. Os times do Rio são os que mais podem se aproximar do estilo do Barcelona, trabalhando a bola. Mas precisam desenvolver aspectos, transição ofensiva-defensiva. É algo que o brasileiro precisa evoluir. Quando perder a bola, se organizar, pressionar o adversário. O jogador brasileiro ainda perde tempo se lamentando. O companheiro erra o passe e eles preferem reclamar do que já voltar para marcar, isso tem que ser trabalhado. Vi uma entrevista do Juninho Pernambucano falando da diferença do futebol brasileiro do europeu. Ele disse: 'O brasileiro acha que vai treinar 40% e vai resolver por causa da qualidade'. A gente precisa mudar esse cenário. O clube europeu quer um outro tipo de jogador e hoje os brasileiros tem perdido espaço na Europa pra africanos, asiáticos, por causa disso.

O modelo que você pretende impor no Vasco é então baseado no Barcelona?

- Gosto muito do Barcelona, do City também, não tem como não gostar. Essa ideia de jogo de posse de bola, querendo ou não, se inspira no Guardiola. Vejo os jogos dele, li o livro. Tem que mudar a questão da mentalidade, que aos poucos vamos conseguindo implantar e fazer algumas coisas que ele introduz lá.

O Guardiola se encantou com Gabriel Jesus... Você chegou a trabalhar com ele?

- Muito pouco. Quando cheguei no Palmeiras, o Jesus estava subindo ao profissional. Depois da Copinha, foi direto.

Gabriel Jesus já saiu do Brasil pronto para Europa antes mesmo dos 20 anos. Como você faz para lapidar os atletas até o profissional?

- O processo começa desde os 15 anos. Passa por diversas etapas pra chegar pronto. Hoje a categoria sub-20 tem um calendário grande, tem estadual meio e fim de semana. O desenvolvimento é nos ajustes, na lapidação. Termos de treinos são poucos. É muito desgastante, jogo atrás de jogo. Esse ciclo tem que ser todo na mesma filosofia, 15, 17, 20. A ideia do Vasco, com Zé também, é que a gente crie uma escola de formação com conteúdos apropriados para cada idade. No sub-20 é só fazer ajustes, vida extracampo. Desde que cheguei, me preocupo com isso. Véspera de jogo me reúno com grupo, falo que é necessario ter descanso. Pós-jogo converso também. É um momento de definição da carreira deles, é a hora de dar o sprint final, não desacelerar. Achar que já deu certo porque completa treinos no profissional é errado. Do sub-17 pro sub-20 sobem uns 15 atletas. Mas quando estoura a idade do sub-20, não sobem 15, sobem 4 ou 5. Só quem aproveitou a reta final e está bem trabalhado. Reta final é pra se dedicar muito em termos profissionais.

Tem muito garoto que se destaca na base mas é preterido pelo treinador nos profissionais. E o contrário também... É por conta disso?


- Sim, quando um jogador sobe, outro da base começa a se criar. O potencial dos atletas da base pode passar até os que já estão no profissional. É reta final, hora do sprint. Ele pode ter trilhado todo o caminho, mas se não mantiver o nível agora, pode não virar profissional. E um garoto menos conhecido pode ganhar mais espaço.

Você treinou o sub-20 do Fluminense durante um tempo, e lá tem um exemplo disso. O volante Wendel pouco chamava atenção, mas subiu aos profissionais, virou sensação e foi vendido para Europa em menos de um ano. Como explica?

- No Brasil, o garoto chega no sub-20 com uma relação entre todos os atletas muito fortalecidas em termos de grupo. Ele entrou em um grupo que já estava muito tempo junto. Jogadores prestigiados, como Douglas, Bonilha, Danielzinho... Wendel, nesse momento, chegando do Tigres, vem como um jogador entrando numa 'panela'. Vinha para tomar espaço de um companheiro. Para ele se destacar, não é simples. Tem que ter personalidade. No profissional já é outra ideia. Como os planteis mudam a cada ano, os grupos não estão formados. Tem time já formado desde os 13 até os 20 anos. É difícil para quem chega depois. Por outro lado, lado tático, o jogador com potencial técnico, motivação, intensidade, vai pro profissional sem panela e vai conseguir jogar. No Brasil é assim, se o treinador gostar, gostou. Resolveu o problema, vai jogar. Também tem o lado do jogador que sempre foi bem na base, mas chega no profissional já tem jogadores de peso no lugar, complica. Em outros casos, você nem se destacou, mas na sua posição tem um machucado, outro fora e você ganha a oportunidade.

O técnico do Sporting, Jorge Jesus, fez duras críticas à base brasileira, dizendo que o Wendel não estava pronto para o futebol europeu, que faltava entender o jogo coletivo. Como vê isso? Concorda com o que o português disse?


- Quando um garoto chega no profissional, com o plantel desfigurado, as oportunidades aparecem. A equipe perde tempo de construção coletiva mas aparecem bons valores individuais. Concordo com essa delcaração porque o processo deles no plantel é ano a ano. Querendo ou não, tem um grupo mais fixo. No Brasil tem muita mudança: sai do Vasco pro Bahia, pro Inter, pra todo o país. Na Europa treina muito mais o lado coletivo, pensamento coletivo de formação. E a formação do brasileiro e do sul-americano é muito potencializada pro lado individual porque tem que se destacar pessoalmente pra chegar na Europa. Precisamos mudar a questão da mentalidade. E na base temos conseguido um pouco isso, com essa ideia coletiva com valores individuais. Se pegarmos alguns jogadores dentro do Brasil que vão para o Sporting, alguns talvez já consigam chegar quase pronto. O Wendel, por ter tido esse problema de formação de base, pouco tempo no sub-20 e saído rápido do Fluminense, perdeu um pouco desse processo. Mas acredito que são vários aspectos.

É diferente a mentalidade da base na Europa? O que você tenta trazer para o Brasil?
- Já fui em várias competições na Europa, é diferente. Lá, mesmo perdendo de 3x0, não se muda a forma de jogar. No Brasil, o lado emocional manda muito. Se você estiver perdendo de um time pequeno, muda toda a proposta para ganhar na marra. Esse lado emocional influencia no tático que é a ideia principal do jogo. Aí começa a jogar bola na área, tenta driblar todo mundo... e às vezes o ideal é rodar, ter calma. Torcida também influencia, a família quer que o filho chame a atenção, faça gol, faça algo diferente. Muito jogador quer ser o cara que faz o gol, que dá o passe pro gol. Na Europa, o jogo está 3x0 pro outro time e os pais batem palma no fim do jogo, não pressiona os meninos, não pressiona a arbitragem.

Então essa pressão pelos resultados prejudica a formação? Vencer uma competição nem sempre quer dizer que os atletas estão se desenvolvendo?
 
- Numa forma geral, tem que alinhar o pensamento. Na minha visão, jogar bastante numa competição é fundamental. Se você sair na primeira fase, deixou de ter oportunidades de jogar mais jogos importantes. O atleta vai vivenciar situações de jogo grande, contra equipes de camisa. Todo esse processo técnico-tático-emocional , que exige mais concentração, personalidade, é importantíssimo pra formação. Não exatamente a conquista da competição, que gera certas armadilhas. Para ganhar, tem que construir mas não quer dizer que o título seja a melhor formação. É uma questão que tem que ter cuidado. Ele só vai estar garantido quando vier pro profissional e atuar bem pelo profissional. Antes disso, não está pronto. A competição é importante por causa disso, mas quedas precoces podem existir. É um processo de formação, tem que ter cuidado, equílbirio...

Diferente do Gabriel Jesus, o Douglas saiu do Brasil para o Manchester City mas logo foi emprestado. Acha que contribui esse período em um time menor na Europa? Pode ser o que faltava na formação do atleta?

- Se aquele clube menor não tem um projeto praquilo que se idealiza, é difícil. Você empresta um garoto jovem para o Tupi, por exemplo, se o clube não tem um projeto, se o treinador não quer jogadores jovens, não adianta. Tem que colocar para jogar e desenvolver, vivenciar a ideia profissional. Na Europa, esses clubes emprestam para lugares que sabem que o atleta terá oportunidade. O Coutinho era do Internazionale, jogou no Espanyol e cresceu ali. É muito melhor. O que muitos clubes europeus têm é uma ideia de jogo formada, mesmo não tendo ótimos resultados, isso agrega. Quando joga contra o Real ou Barça, óbvio que perdem, mas tem uma ideia de jogo que ajudam a desenvolver o atleta taticamente. Douglas voltará pro Manchester City muito mais preparado.

Já chegou até você um jogador bom, mas 'peladeiro'? Digo, que não tenha ainda muita noção do futebol profissional e você teve trabalho para fazer ajustes com o atleta. Ou só chega no sub-20 quem já está preparado por ter passado pelo sub-15, 17...

- Tive experiências assim no sub-20 do Cruzeiro, que ainda buscava jogadores profissionais de clubes menores para crescerem no sub-20 e depois jogar no profissional. O Raniel veio no último ano do sub-20, jogava no profissional do Santa Cruz e foi pro Cruzeiro como meia atacante de lado. No dia a dia, vi que tinha potencial, mas não conseguia se destacar como a gente imaginava. Por isso visualizei ele em outra função, mais próxima da característica. Costumo fazer isso, fiz muitas trocas que acabaram dando respostas boas na base. Com Raniel foi assim, mais longe do gol ele não rendia porque não tem tanta velocidade de beirada. Nos treinos reduzidos, mais próximo do gol, ele chutava muito e dava certo. Por isso trouxe mais por dentro, mais como atacante. Botei  de centroavante, conversei com ele. É um menino disposto a crescer, e aceitou. Virou artilheiro do sub-20, e depois nos treinos no profissional o Mano gostou.

Quais foram os jogadores que mais chamaram atenção de você pela qualidade durante suas passagens nas divisões de base? 

- Como tive mais tempo no Fluminense, construí uma identidade com eles. No Cruzeiro também, mas no Palmeiras pouco. Destacaria o Douglas, o próprio Raniel, o Murilo Cerqueira, o Gérson... são muitos talentosos. O Tony Anderson, bom jogador, que está no Grêmio. O Mano vê ele como eu via, mais como centroavante do que como meia. Não tem tanta mobilidade, é mais finalização. Emprestaram para ver se dá uma bagagem e é um garoto que pode despontar. 

E sobre alguns fenômenos da base, como o Paulinho aqui no Vasco. Como vê a disputa pelo posto de 'maior joia do Brasil' com Vinícius Junior?

- Isso é muito mais do lado do torcedor do que dos atletas. Eles vão pra seleção juntos, se completam, são bons atacantes com baita potencial. A gente espera muito dos dois, porque chegar no profissional com 17 anos é muito difícil. Espero que a sequência deles seja muito positiva que vai ser bom demais pro Brasil. A disputa é de torcida, ambos têm cabeça boa, se entendem bem.

Tanto o Paulinho como o Vinícius foram convocados para Seleção sub-20, mas os clubes não os liberaram para amistoso. É uma oportunidade perdida?

- Não acho. Tem jogador que entra como titular na equipe principal. Hoje, pra formação, vale mais ser profissional, dá um retorno maior que a seleção sub-20. O ideal é conciliar os dois lados, mas a prioridade é profissional, até pela formação dele, não só pelo retorno. Vivenciar semis e finais do Carioca vale mais do que jogar amistosos na seleção sub-20. A CBF tem que se organizar para conciliar o calendário.

Para fechar: qual é sua análise sobre o atual cenário de divisões de base no Brasil?
- A base tem se desenvolvido bem, mesmo com todas as dificuldades. Muitos lugares veem a base como gasto, não como investimento. O Rio tem dado muitas oportunidades ao jovens e isso valoriza muito mais. Vê o plantel do Vasco, Botafogo, Fluminense, Flamengo... todos têm usado garotos, é uma mentalidade muito positiva. Realmente os clubes valorizam isso, é fundamental. Precisamos controlar um pouco questão emocional, desenvolvimento, pressão externa. Mudar esse pensamento de 'só é bom se for campeão'. A gente não está formando equipes, e sim jogadores. Tem times que ganham campeonatos sub020 mas não formam bons atletas profissionais. Jogo demais atrapalha, os garotos precisam treinar, se recuperar. Mas acho que estamos no caminho certo, o nível da base melhorou muito.


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