Luiz Fernando Gomes: Deboche tolerado pela Conmebol
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Luiz Fernando Gomes: Deboche tolerado pela Conmebol

Gremio x River Plate
River Plate eliminou o Grêmio na semifinal da Libertadores (Foto: AFP)
Luiz Fernando Gomes - 04/11/2018 - 08:10
São Paulo (SP)
Não foi apenas uma vaga na final da Libertadores que esteve em jogo no julgamento pela Conmebol do recurso do Grêmio contra o comportamento do técnico Marcelo Gallardo no jogo de terça-feira em Porto Alegre. Foi, muito mais do que isso, a credibilidade do futebol sul-americano e a seriedade de uma diretoria que assumiu o comando da entidade após os escândalos do Fifagate com promessas de modernização e moralização.

A hora da verdade chegou, a prova de fogo dessa gestão. E eles não passaram no teste. A pena de quatro jogos de suspensão imposta ao técnico é ridícula e o tratamento dado ao River, com apenas uma multa e a manutenção do resultado do jogo, embora esperado, é uma prova entre tantas que as mudanças prometidas por aqui ainda são muito mais retóricas do que medidas práticas.

Os termos fortes que os advogados gremistas usaram em sua petição são mais do que justificados. O que o suspenso Gallardo fez, comunicando-se sem nenhum disfarce do camarote com seu auxiliar técnico à beira do campo, descendo ao vestiário no intervalo da partida para instruir seus jogadores e, depois disso tudo, ainda dando entrevista pós-jogo na zona mista reservada a quem participou do jogo, não tem outro nome que não seja deboche, uma afronta à Conmebol e ao futebol continental.


E MAIS:
É evidente que o treinador não agiu sozinho. E nem por impulso como tentou convencer à sociedade e aos julgadores do Tribunal Disciplinar sul-americano. A ação, premeditada, não apenas foi cuidadosamente planejada como contou com o apoio integral, moral e logístico, da diretoria do River. Afinal, de onde saíram os rádios-comunicadores? Quem determinou aos seguranças que se postassem à porta do vestiário alvirrubro, impedindo o acesso dos agentes da Conmebol? É obvio que nada disso ocorreu por acaso.

Vale lembrar que o Boca, arquirrival dos riveristas, viveu situação semelhante no dia seguinte à polêmica. O técnico Guillermo Schelotto, no duelo contra o Palmeiras no Allianz Parque, também estava suspenso e, ao menos aparentemente, cumpriu à risca o que determina a regra: assistiu à partida confinado num camarote do estádio e não teve, até onde se sabe, qualquer contato com o time em campo. É assim que se faz, é isso que tem de ocorrer, sem espaço para discussão se está certo ou está errado.

O escárnio que se viu na Arena do Grêmio foi um escândalo global que repercutiu fortemente também na imprensa europeia com as imagens do técnico e seu radinho reproduzidas a rodo nas televisões de todo o mundo. Ainda que o Grêmio, derrotado no tribunal esteja fora da final da Libertadores, não deveria deixar de seguir em frente. O tempo é escasso o que inviabiliza na prática reverter a sentença da Conmebol. Mas levar o caso à Fifa ou à Corte Arbitral do Esporte, como já ocorreu outras vezes para alterar decisões esdrúxulas, será fazer um bem ao futebol, criando-se quem sabe uma jurisprudência sobre o tema.

A ironia dessa história é que os mesmos julgadores que haviam punido Gallardo, impedindo-o de ficar no banco, terça-feira, foram os que agora decidiram o futuro do treinador.

Um outro da do relevante: a imprensa argentina, desde o início, mostrou-se tranquilíssima e confiante de que o River não perderia pontos e estaria em campo naquela que já é considerada a maior final de todos os tempos na Libertadoras. Não foi um otimismo sem fundamento. É a constatação da fragilidade do futebol brasileiro, com uma CBF paralisada pelos escândalos da dinastia Teixeira-Marin-Del Nero, sem voz nas entidades que ditam - e manipulam - as regras do esporte.

O fato de que o River está na final, de que apenas Gallardo foi punido com um gancho não é, enfim, o tema central desse imbróglio. O que sai da decisão do Tribunal Disciplinar é uma outra constatação: a de que o futebol sul-americano ainda não apontou para o futuro, continua a debater-se nas mazelas que não engrandecem o seu passado.


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