Chegada de CR7 à Juve pode reavivar paixão pelo futebol italiano
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Chegada de CR7 à Juve pode reavivar paixão pelo futebol italiano

  •  Cristiano Ronaldo
    Após nove anos no Real Madrid, CR7  se transferiu para a Juventus em uma transação de 117 milhões de euros (Foto: Divulgação/Juventus)
  •  Apresentação Cristiano Ronaldo Juventus
    Veja as imagens da chegada de Cristiano Ronaldo à Juventus Divulgação / Twitter
  •  Coletiva Cristiano Ronaldo
    Veja as imagens da chegada de Cristiano Ronaldo à Juventus Divulgação / Twitter
  •  Cristiano Ronaldo - Juventus
    Veja as imagens da chegada de Cristiano Ronaldo à Juventus (Foto: Divulgação)
  •  Cristiano Ronaldo
    Veja as imagens da chegada de Cristiano Ronaldo à Juventus Divulgação
  •  Cristiano Ronaldo
    Veja as imagens da chegada de Cristiano Ronaldo à Juventus  Divulgação/Twitter
  •  Cristiano Ronaldo em Turim
    Veja as imagens da chegada de Cristiano Ronaldo à Juventus UEFA
  •  Torcedores com camisa de Cristiano Ronaldo
    Veja as imagens da chegada de Cristiano Ronaldo à Juventus (Foto: Isabella Bonotto/AFP)
Paula Vieira* - 21/07/2018 - 08:05
Rio de Janeiro (RJ)
Cristiano Ronaldo chega à Juventus como uma aposta dentro e fora dos gramados. Ao desembarcar em Turim no último dia 16, o jogador fez a ficha do mundo do futebol cair, mostrando que seu reinado de nove anos no Real Madrid havia chegado ao fim para que uma nova história fosse iniciada na Itália.

Não existia dúvida de que a transferência do melhor camisa 7 do planeta geraria um vendaval no mercado internacional, mas os resultados da transação de 117 milhões de euros (cerca da R$ 517 milhões de reais) - a mais cara da história do futebol italiano - também refletiu na bolsa de valores do país. As ações da equipe subirem em níveis que não eram vistos desde 2011.

No período de uma semana em que a negociação envolvendo o jogador ganhou espaço na mídia, as ações da Juventus já haviam subido 30,4%. Hoje, a valorização é de 210,50 milhões de euros, saldo que estipula o valor de mercado do clube em 863,50 milhões de euros, de acordo com o 'Transfermarkt'. Um levantamento da consultoria KPMG estima que a presença de Cristiano Ronaldo renda entre 100 milhões e 130 milhões de euros nas receitas do clube a partir da temporada 2019/2020, o que gera um faturamento superior ao da última temporada, quando a Juventus registrou receita de 406 milhões de euros (R$ 1,8 bilhão).

Os primeiros passos para uma grande arrecadação já teve participação direta dos torcedores. Após a apresentação do jogador, os sócio-torcedores da Juventus compraram antecipadamente 25.300 ingressos, que somados aos quatro mil lugadores "premium", chegam a 29.300 lugares já reservados. Outro fator que movimentou Turim foram as grandes filas formadas nas portas de lojas por pessoas que procuravam a cobiçada camisa 7. Em três dias, cerca de 520 mil uniformes haviam sido vendidos e, se for levado em conta que cada camisa custa 115 euros (em média), chega-se ao montante de 54 milhões de euros.

Uma estimativa da fornecedora de materiais esportivos alemã Adidas prevê que sejam vendidas 3 milhões de camisas com o nome de Cristiano Ronaldo nos próximos dois anos, o que geraria um valor três vezes maior do que o investimento do clube para contratar o atual melhor jogador do mundo. Para o consultor de gestão e marketing esportivo Ricardo Mathias, a transferência do camisa 7 vai aumentar a visibilidade do futebol italiano e gerar interesses de investimentos por empresas externas.


- Os ganhos financeiros serão enormes porque o Cristiano Ronaldo é um astro. Com a ida dele para a Juventus, houve um crescimento na valorização das ações da empresa e isso, com certeza, gera uma atratividade não só para o clube, como para o campeonato italiano. Além disso, o Cristiano Ronaldo é um grande influenciador nas redes sociais e isso atrai mídia e, consequentemente, interesse por empresas, marcas e patrocínio. Obviamente o mercado italiano aquece e isso pode motivar outras equipes a fazer o mesmo movimento.

Direitos de transmissão do Campeonato Italiano


Cristiano Ronaldo
Cristiano Ronaldo comemora gol pelo Real Madrid (Foto: Reprodução Facebook)
Um indicativo da valorização da liga italiana é refletida na venda dos direitos de transmissão do torneio. De acordo com o 'Estadão', a Lega Calcio, organizadora do campeonato italiano, vendeu seus direitos de transmissão, pelo período entre 2019 e 2022, no início do ano para a espanhola Media Pro pelo valor de 3,15 bilhões de euros (R$ 14,2 bilhões). Em contrapartida, a italiana RAI renovou o contrato para transmitir a Copa da Itália pelos próximos três anos, por 106 milhões de euros (R$ 478 milhões), entretanto, pelos acordos terem sido fechados antes da transferência do jogador, as mudanças devem ser apontadas apenas quando os contratos forem encerrados.

No Brasil, as últimas temporadas do campeonato italiano foram transmitidas pelos canais ESPN e Fox Sports. Porém, a transferência do craque despertou o interesse de outras três emissoras. Segundo o 'Portal UOL', Esporte Interativo, a Fox Sports, o Grupo Globo, a ESPN Brasil já fizeram propostas formais à IMG, que comercializa os direitos de transmissão do torneio, porém há mais um canal que foi mantido em sigilo. O comentarista esportivo Anderson Marques, do canal italiano Premium Sport comparou a venda do direitos antes da contratação do camisa 7 e o que as emissoras que ainda tentam o acordo devem esperar.


- Com a chegada do Cristiano Ronaldo, a questão financeira e de imagem do clube e do Campeonato Italiano aumentaram bastante. Desde o anúncio do jogador até hoje, a bolsa da Juventus cresceu 30%, o que é bom não só para o clube como para a própria liga, que vai ganhar mais visibilidade e ter aumento na receita de TV. Aqui, nós compramos os direitos de imagem antes da chegada dele, mas se a contratação tivesse sido realizada antes, provavelmente o preço seria muito mais caro.


Chegada de CR7 reaviva época de ouro do futebol italiano


Juventus campeã da Liga Europa em 1990
Juventus comemora conquista da Liga Europa, em 1989-90 (Foto: UEFA)
A chegada de Cristiano Ronaldo em Turim também alimenta a expectativa dos torcedores em verem a Itália voltar a ter destaque no cenário esportivo. Hoje, a realidade não condiz, mas, entre as décadas de 1980 e 1990, a Série A do campeonato italiano era a que mais rendia audiência e interesse do mercado, além de ter os maiores craques do mundo, como Zico e Maradona. O jornalista italiano Fillippo Cornacchia, da Tuttosport, comparou a contratação de Cristiano Ronaldo pela Juventus com a transferência de Maradona para o Napoli, em 1984.


- Cristiano Ronaldo/Juventus na Itália é considerado tão importante quanto o Maradona/Napoli em 1984. Com a aquisição de CR7 pela Juventus, outros top jogadores serão atraídos, mas a situação é diferente dos anos 90: Há 20 anos, todos os top jogadores atuavam na liga italiana - concluiu.

A decadência do futebol italiano se iniciou com a falência do modelo de gestão conhecido como "mecenato", em que homens com grande poder aquisitivo presidiam e bancavam os principais clubes com times de craques. O principal nome era do empresário no setor de comunicação, Silvio Berlusconi, que comprou o Milan e tirou o clube da beira da falência para deixá-lo como uma das principais equipes europeias que contava com reforços como Gullit e Van Basten.

O mesmo se repetiu com Massimo Moratti, que foi presidente da Internazionale durante 18 anos (1995-2013) e levou para o time uma lista de jogadores famosos como, por exemplo, o brasileiro Ronaldo Fenômeno - um dos principais. A Roma contava com o empreendedor no campo petrolífero Francesco Sensi, enquanto Sergio Cragnotti, ex-chefe do conglomerado alimentar Cirio, viu a Lazio ganhar reconhecimento europeu com títulos italianos e continentais. Já Corrado Ferlaino liderou os anos de ouro do Napoli.

O brasileiro Antônio de Oliveira Filho, popularmente conhecido como Careca, sabe bem como funcionava a era do mecenato na Itália. Atacante do Napoli entre 1987 e 1993, o ex-jogador, que atuou ao lado de Maradona, teve uma passagem vitoriosa pelo clube, com os títulos da Copa da UEFA (1988-89), Campeonato Italiano (1989-90) e Supercopa da Itália (1990).

- Na época, os presidentes eram proprietários dos clubes e a maioria era italiano. O meu presidente era o Corrado Ferlaino e eles sempre investiram nos times, mas era graças aos torcedores, que compareciam em massa. Cerca de 70 mil pagantes que tinham a garantia de todos os jogos em casa. Então isso dava uma sustentação e uma certeza para os investidores. Na minha época, o time só podia ter três estrangeiros. Em 87, tinha o Maradona, aí eu cheguei e o Alemão (Ricardo Rogério de Brito) foi contratado em seguida. Então não era fácil comprar jogador. As coisas eram difíceis, mas também eram bem administradas por esses grandes empresários.

Careca conta que os cartolas também davam bonificações internas para os jogadores como forma de motivá-los a buscar bons resultados.

- Quando a gente enfrentava um time como Juventus, Milan, Inter e vencíamos, a gente ganhava uns dois mil dólares de premiação, que às vezes dobrava ou triplicava, dependendo se o jogo era decisivo, reta final ou envolvesse conquistas.

Ex-jogador e atualmente comentarista nos canais ESPN, Zé Elias, que passou pela Inter de Milão (1997-1999), Bologna (1999-2000) e Genoa (2003-2004) acredita que a decadência do futebol italiano não começou somente com o fim da era do mecenato. Para ele, faltou planejamento da Federação Italiana e dos clubes, o que aproximou a crise.


- A situação econômica da Itália foi piorando ao longo do tempo, assim como a qualidade dos jogadores foi se deteriorando enquanto outros países foram se organizando e as federações tornando os clubes mais fortes. A formação dos novos jogadores não teve a mesma qualidade e aumentou o investimento na contratação de jogadores estrangeiros. A Juventus ganhou sete vezes o campeonato italiano, mas tem mais estrangeiros no elenco do que italianos. A gente consegue ver o resultado dessa crise na seleção italiana, que neste ano nem se classificou para a Copa do Mundo.

Profissional na área de marketing esportivo, José Carlos Brunoro presidente do conselho da Brunoro Sport Business acrescentou que faltou um bom plano estratégico, que poderia ter evitado a crise no esporte do país.

- Os clubes ficaram acomodados com a situação dos mecenas. Não havia grandes estratégias de marketing e comunicação; a federação italiana também ficou acomodada e não fez nenhum projeto diferenciado para promover o campeonato e melhorar o desempenho dos clubes. As três partes não trabalharam como deveriam.

Apesar da crise instaurada no futebol italiano, a família Agnelli, dona da Fiat, que já realizava grandes investimentos na Juventus na época de ouro, soube manter o padrão elevado do clube, mesmo com uma queda para a segunda divisão do país. Com investimento no Juventus Stadium - custo de 155 milhões de euros - e uma estratégia de mercado, que visa manter verba em caixa para investir em grandes atletas dos times rivais, o clube se tornou o maior da Itália, com uma sala de troféus que reúne 67 conquistas.

Nova perspectiva para o Campeonato Italiano


Ninguém ganhou mais o Campeonato Italiano do que a Juventus: 33 vezes campeã
A Juventus é a maior vencedora do Campeonato Italiano, com 37 títulos conquistados (AFP)
Uma nova perspectiva surge com a transferência de Cristiano Ronaldo para o futebol italiano, mas o craque logo vai sentir o peso da camisa da Velha Senhora. Após deixar o Real Madrid com 33 anos e o posto de maior artilheiro da história do clube, com 451 gols, o jogador chega em Turim como voz da experiência em conquistas da Liga dos Campeões e com a missão de interromper o jejum de 20 anos que vive a Juventus.



- Aqui na Itália, está ocorrendo uma "Febre do Cristiano Ronaldo", algo inacreditável. Os fãs da Juventus nunca estão otimistas quanto a Champions League, mas com o Ronaldo eles podem sonhar - contou o jornalista do Corriere della Sera, Paolo Tomaselli.

Entretanto, nem só de Juventus vive o futebol italiano. Apesar de o clube largar na frente como o mais bem dotado financeiramente e com a equipe mais forte, há a expectativa de que a liga sofra um "boom" com a visibilidade. Assim, a Itália poderia atrair astros e reavivar a potência do início dos anos 90.


- Acho que a contratação do CR7 vai chamar o campeonato italiano de novo para os holofotes, para aquilo que ele pode pode fazer na Liga e também vai gerar mudanças nos clubes que a Juventus vai enfrentar. Acredito que a transferência vai fazer todas as equipes buscarem qualidade, porque se elas não reforçarem o elenco com jogadores que podem agregar mais em termos de experiência, vai ser mais difícil ainda enfrentar a Juventus. A presença do Cristiano Ronaldo vai despertar as outras equipes para competirem de igual para igual - analisou o ex-jogador Zé Elias.

Para o consultor em gestão e marketing esportivo, João Henrique Areias, o primeiro passo para que os clubes italianos se firmem no cenário mundial, é criar um modelo profissional de gestão.

- Mudar o modelo de gestão e criar um modelo profissional é o primeiro passo. Como a Itália é um país com receitas altas de televisão, será necessário um investimento na imagem do clube, o que automaticamente vai aumentar a visibilidade. Os clubes da Liga têm condições de conseguirem um bom plano de marketing, mas precisam profissionalizar o modelo.

Além dos pontos destacados para o desenvolvimento das equipes que querem ganhar mais visibilidade na competição nacional, João Carlos Brunoro frisa a importância da realização de um trabalho técnico para aprimoramento dos jogadores, além de projetos que aproximem a torcida dos clubes.


- A parte técnica também precisa de atenção. Quando não tem um espetáculo muito bom, o público se afasta e essa falta de um bom trabalho técnico culminou na saída do país da Copa do Mundo, o que fez a torcida se distanciar ainda mais. É preciso que seja desenvolvido um bom projeto de aproximação com a torcida, melhoria do nível técnico dos jogadores e isso pode ser feito a partir dos clubes que trabalham com a federação. Essas duas mudanças melhorariam o nível no campeonato.

*Sob supervisão de Yuri Andrade

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