Especialista não vê eficácia em protestos de torcedores sobre atletas
menu button lance
lancelogo lancelogo lance

Especialista não vê eficácia em protestos de torcedores sobre atletas

General Severiano Muro
(Foto: Divulgação)
Fernanda Teixeira - 05/10/2019 - 07:00
Rio de Janeiro (RJ)
A invasão do espaço dos clubes por torcedores que desejam cobrar empenho dos jogadores e técnicos tem sido uma cena comum no Brasil na temporada de 2019. E a bola da vez foi o Botafogo, que durante a semana teve os muros da sede pichados e o treino invadido por torcedores. A eficácia deste tipo de manifestação, no entanto, é contestada por especialistas. Consultada pelo LANCE! sobre o tema, a psicóloga e coach esportiva Aline Saramago acredita que aumentar a pressão sobre atletas mais atrapalha do que ajuda. 

– Esse tipo de pressão não funciona para os jogadores melhorarem o desempenho em campo. É uma tentativa falha dos torcedores e que só coloca mais pressão em uma profissão que é pública e já tem bastante cobrança, seja durante os jogos, pela torcida, pelos técnicos, da família. O ideal seria que os torcedores fossem mais nutritivos. Há o mito de que as pessoas que funcionam melhor sob pressão. Existir, até existem. As pessoas que conseguem se controlar, não entram no estresse e administram bem, lidar com as emoções de maneira mais equilibrada. Ao meu ver, muitas pessoas se acostumam a viver estressadas, o que não faz bem para a saúde de maneira alguma – explica Aline.

Para a psicóloga, que tem experiências anteriores com atletas de diversas modalidades como vôlei, triatlo, crossfit, lutas e até mesmo de xadrez e games, não existe qualquer garantia de que as cobranças vão gerar um maior empenho dos atletas em campo. 



– Os jogadores podem enxergar como falta de respeito, humilhação e se perguntar que tipo de torcedor é esse, que deveria apoiar, mas que chega para agredir e xingar. Isso é um comportamento aprendido, infelizmente, na nossa sociedade. Isso não leva a bons resultados. Deveriam ser mais apoiadores, nutritivos. Não é para agredir, da forma que for, isso acontece muito nas redes sociais também, o ideal seria as pessoas darem conta que elas têm um impacto sobre o outro e, por isso, é preciso ter cuidado com a forma que se comunica. As palavras são muito poderosas. É preciso consciência de que as palavras podem machucar e que isso pode piorar a moral do time.

Aline explicou ainda que um ambiente estressante pode fazer com que o desempenho piore, em razão da diminuição da capacidade de pensar e tomar as melhores decisões.

– O nervosismo e a pressão fazem o rendimento cair muito. O desempenho nos jogos e treinos não é o mesmo. O estresse e ansiedade fazem com que ativemos o modo de luta e fuga, que fazem com que a pessoa não pense direito. Isso pode prejudicar a visão de jogo dos atletas. O ideal seria que os jogadores buscassem o equilíbrio emocional para lidar com esse tipo de pressão de uma forma mais tranquila, mas isso não acontece naturalmente e sim é aprendido em sessões de coaching ou de terapia – opinou a especialista.

O Botafogo vive o seu pior momento no Campeonato Brasileiro com uma sequência de quatro jogos sem vencer, sendo três derrotas consecutivas. A queda no desempenho em campo aliada à crise financeira vivida pelo clube nos bastidores fizeram a paciência da antes compreensiva torcida se esgotar. A invasão do treino da equipe por um grupo de cerca de 15 torcedores fez a diretoria fechar as atividades para a imprensa até o clássico com o Fluminense no domingo. 

A partida, válida pela 23ª rodada, é encarada como ares de decisão no clube, uma vez que pode definir a permanência do técnico Eduardo Barroca no cargo. Os três pontos também são cruciais para que a equipe volte a brigar na parte de cima da tabela, conforme planejado pela comissão técnica no início do torneio. 

Desde o retorno da pausa da Copa América, o Alvinegro não consegue ter a mesma regularidade do primeiro turno. Em setembro, o Botafogo teve um aproveitamento de apenas 26,6%, enquanto em maio, melhor mês de Barroca à frente da equipe, o índice foi de  71,4%, com cinco vitórias e duas derrotas em sete jogos feitos.


E MAIS:
Virou rotina

As cenas vistas no Nilton Santos e em General Severiano não são novidade no Brasil este ano. No último final de semana, torcedores do Fluminense derrubaram o portão do CT do clube e também invadiram o treinamento para cobrar o elenco. Os jogadores foram cercados pelos membros de organizadas e os seguranças do clube precisaram intervir.

Situação semelhante foi vivida pelo Cruzeiro, dias depois, quanto torcedores invadiram a Toca da Raposa. Integrantes de uma torcida organizada derrubaram o portão principal, soltaram foguetes e exigiram uma conversa direta com os jogadores.

No começo de setembro o clima foi tenso no Corinthians. A Gaviões da Fiel, principal organizada do clube, fez um protesto na porta do CT Joaquim Grava enquanto a equipe comandada pelo técnico Fábio Carille treinava. Os torcedores pediram mais raça e uma postura menos defensiva. O ato durou pouco mais de uma hora e teve a participação de aproximadamente 150 torcedores uniformizados.

Em Minas Gerais, o presidente do Atlético-MG recebeu integrantes de uma organizada antes da partida contra o Vasco, na última quarta-feira, para escutar reclamações. Em Goiás, vidros da loja oficial do Esmeraldino, amanheceram quebrados depois da derrota do clube para o Grêmio por 3 a 0, na última rodada do primeiro turno do Brasileirão.

Em julho, o elenco do Flamengo foi alvo da fúria de torcedores durante embarque no Aeroporto do Galeão. Na ocasião, o meia Diego se irritou, discutiu e tentou encarar alguns torcedores, mas foi contido por seguranças.

Facebook Lance Twitter Lance